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    Guilherme Borges

    29 de Janeiro de 2020 por Guilherme Borges

    A partir do momento em que você começou a enrolar as meias do seu pai e arremessa-las, se imaginando fazendo a cesta da vitória no último segundo de um importante jogo no lendário FORUM, eu percebi uma coisa: você tinha se apaixonado por mim.

    Sejamos sinceros? Como você mesmo já afirmou algumas vezes, aos 6 anos de idade, você não era muito bom. Mesmo assim, você dedicou tudo que tinha a mim: alma, corpo, mente e coração. Também, como poderia ser diferente?

    Eu lembro de você ainda criança, mirrada e sem muitos amigos me usando como proteção para a sua timidez e solidão. Depois ouvi dizer que você se sentia sozinho porque não conseguia se comunicar direito em razão de ter mudado dos Estados Unidos para Itália. Tudo bem, Kobe. A minha linguagem é universal. Em qualquer lugar que eu estou, eu falo uma língua só. Aqueles que se dedicam, me entendem. E, poxa, com o tempo, como você passou a me entender. Por isso, eu também te entendi.

    Com toda essa dedicação e paixão, não me restou outra opção: eu te amei de volta. Te retribui. Quanto mais você se doava, mais eu me entregava. É verdade. Talvez você não tenha nascido com o "dom" de saber me usar. Quer saber? Eu nunca liguei! Porque se os outros passavam uma hora do dia comigo, você passava quatro. Se não era o mais talentoso, ou o fisicamente mais dominante, era o mais dedicado. Era uma relação perfeita de mutualismo. Eu fiz você crescer. E, sendo bem honesto, você me fez crescer também.

    E você cresceu. Se tornou (ainda mais) raivoso. Eu sentia, porque você me usava para descontar sua frustração nos outros. Irreverente. Explosivo. Eu gostava. Com 17 anos, em 1996, um pouco antes de um dos maiores que já esteve comigo me deixar (de novo), você decidiu ir ainda mais fundo na nossa relação. Entrou para a NBA. A partir daí, foi uma jornada ainda mais intensa.

    Na frente de todos, depois de um tempo, mostramos que, juntos, não tínhamos limite. Escolhido para jogar na franquia que sempre soube me usar. Que de mim, fez um show. Não conte pra ninguém, mas, eu amo o Roxo e Dourado.

    O começo foi difícil. Dois arremessos que nem tocaram o aro, lembra? Depois, mais uma vez, você provou o que podia fazer. Você era o artista, e eu, seu quadro em branco. Cada noite era uma pintura diferente. E o quadro final, meu querido amigo, deixaria até Michelangelo com inveja: Trabalho de pé. Fadeaway. Enterrada na cara dos adversários. Raiva. Briga. Título. Briga. Título. Briga. Título. Derrota. Despedida. Mais raiva. "Black Mamba". Mentalidade Mamba. De 8 para 24. Reencontro. Derrota. Título. Título histórico. Eternidade. Olimpo. Queda. Dor. Dois lances livres. Chorou. Chorei. Choramos. Recuperação. Retorno. Incrível. 60 pontos. Histórico. Mamba out. Nosso quadro é a Capela Sistina do basquete. Nosso filme deixa os melhores roteiristas de Hollywood babando.

    Você me fez internacional e eu, te fiz conhecido. Foram 20 anos. Na caminhada, contudo, você entendeu que eu não era só seu. Enquanto estávamos juntos, se tiveram outros que chegaram e tentaram me roubar, você não deixou. Até o fim, fomos fiel um ao outro, sempre nos doando ao máximo. Mas você entendeu que eu não era só seu. Aos poucos, você mudou. Um garoto que virou homem. Um destruidor de adversários que virou amigo deles. Que assumiu o que sempre foi: o herói de uma geração. Conselheiro. Líder. Herói e vilão. Melhor, vilão e Herói. Meu embaixador. Referência no esporte. Só? Não, mais. Muito mais.

    Mais, porque, como eu disse, seu talento foi desenvolvido. E isso, meu querido amigo, é inspirador. Você inspirou milhões. Você inspira milhões. Tão semelhante a todos que não são os mais talentosos, nem os fisicamente mais dominantes, mas que podem ser dedicados. Que podem não ter medo de dar o máximo e fracassar e não receber nada em troca. Você ensinou a sonhar e a alcançar. Porque? Porque "o sonho não está em chegar no destino. Está na jornada". Tão semelhante, mas tão diferente. Diferenciado. Ninguém pode ser você. Mas todos sentem que, o que fizemos juntos, pode ser reproduzido. E eles estão certos. Referência de vida. Um marido arrependido e amoroso. Um pai exemplar. Um único. Kobe Bryant.

    Quando você me deixou a primeira vez, eu estava em paz. Nós nos demos o máximo, não havia mais nada. Você não tinha mais corpo. Tudo bem. Mesmo assim, você ainda me deu um presente. Sua filha, GiGi. Kobe, mais um segredo? Ela seria INCRÍVEL. Que talento e - óbvio - que dedicação. Agora, você me deixou a segunda vez. Para sempre. Dessa vez, eu senti. Senti muito. Foi doloroso. Mas isso no começo.

    No começo porque depois eu parei e comecei a olhar em volta, para todos que estão comigo hoje. LeBron, Durant, Giannis, Kyrie, Damian, Curry, Tatum, Kemba, Davis, Kawhi, PG, Luka, Harden, Westbrook, Jokic, Embiid, Simmons e etc etc etc. Diferentes origens, idades, tamanhos e cores. Em comum? Eu. Eu e você. Mas não só esses. Os que me assistem, te veem. Os que me admiram, estão te admirando. Os que tentam me conquistar, só conseguirão fazê-lo se passarem por você. Quer saber, Kobe? Você não se foi. Você está aqui comigo. Você faz parte de mim. Você e a GiGi. Em mim, existe uma parte bem grande, que é sua. Em cada pessoa esforçada e que busca um sonho, existe uma parte sua. E, embora você tenha se tornado tudo isso, para mim você sempre será aquele garoto. Meia na mão. 5 segundos no relógio. 4. 3. 2..... 1...........

    Do seu querido amigo,

    Basquete.


    "Este texto dialoga com a carta 'Dear Basketball' de Kobe Bryant direcionada ao basquete e com a carta escrita por Felipe Aires quando na aposentadoria do jogador. Confira o documentário: https://youtu.be/Z4E_4c3j9Y8 e do texto de Felipe"

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