O fim dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão–Cortina 2026 marca um ponto de inflexão nos 102 anos de história do evento. Ao encerrar sua 25ª edição, o Comitê Olímpico Internacional (COI) lidera uma transformação estrutural: sai o modelo centrado na TV tradicional, entra uma lógica digital-first, focada na narrativa dos atletas e, com isso, se redefine o que é liderança moderna em escala global.
Os Jogos deixaram de ser apenas um palco de orgulho nacional para se tornar um laboratório de liderança. As grandes estrelas olímpicas de hoje exibem competências muito parecidas com as dos principais executivos do mundo. E, nesse contexto, poucas figuras simbolizam tão bem essa virada quanto Eileen Gu.
Como atleta mais condecorada da história do freeski feminino em Jogos de Inverno, Gu acumulou seis medalhas olímpicas (três ouros e três pratas) em provas de halfpipe, slopestyle e big air. Mas o alcance do que ela representa vai muito além das pistas. A capacidade de equilibrar esse domínio com seus papéis como estudante em Stanford e embaixadora global de grandes marcas transforma sua trajetória em um roadmap de liderança do futuro.
Seu momento mais recente de viralização, respondendo com elegância a uma pergunta sobre “perder o ouro” mesmo elevando seu total de medalhas, foi uma aula pública de gestão de narrativa. À primeira vista, pareceu apenas confiança. Visto com lupa, revela algo mais profundo: o poder de definir seus próprios critérios de sucesso.
Como Gu disse:
“Ganhar uma medalha em Olimpíadas é uma experiência que muda a vida de qualquer atleta. Fazer isso cinco vezes é exponencialmente mais difícil porque… as expectativas de todo mundo sobem. Estou mostrando o meu melhor esqui, fazendo coisas que literalmente nunca foram feitas antes, e eu acho que isso é mais do que suficiente.”
Essa mudança de foco, da validação externa para padrões internos de excelência, tem base sólida em ciência organizacional. Pesquisas de Amy Edmondson (Harvard Business School) sobre segurança psicológica mostram que equipes de alta performance prosperam quando líderes priorizam comportamentos de aprendizado acima de metas frias de resultado.
Quando uma líder como Gu enquadra uma prata , ou um projeto complexo, como triunfo de execução, e não como “derrota por não ser ouro”, ela está construindo uma cultura de resiliência. Ao declarar que sua performance foi “mais do que suficiente”, Gu modela uma mentalidade em que a integridade do processo é o principal indicador.
Gu e a Mentalidade Mamba: o elo com Kobe Bryant
Para o torcedor do Lakers, é impossível ouvir esse discurso de processo acima de resultado imediato sem lembrar de Kobe Bryant e da sua famosa Mentalidade Mamba. Kobe repetia que o verdadeiro objetivo não era o troféu em si, mas o compromisso diário com a melhoria contínua: o treino extra, o detalhe técnico, a obsessão pelo “hoje melhor que ontem”.
Em muitos aspectos, Eileen Gu se posiciona de uma forma que lembra a lenda do Lakers:
- Assim como Kobe, ela não mede o próprio valor apenas pelo placar final, mas pela qualidade do trabalho que coloca em cada execução — mesmo quando isso significa “só” uma prata.
- Ambos tratam o esporte como plataforma de expressão de caráter: disciplina, coragem de tentar o inédito, disposição para assumir riscos que ninguém mais quer correr.
- Kobe costumava falar em “amar o processo mais do que o resultado”. Quando Gu diz que está fazendo coisas “que literalmente nunca foram feitas antes” e que isso é “mais do que suficiente”, ela ecoa a mesma lógica: o verdadeiro padrão está dentro, não no quadro de medalhas do lado de fora.
A grande diferença é o contexto. Kobe construiu a Mentalidade Mamba em uma era ainda muito centrada em controle total e sacrifício silencioso. Gu traz uma versão atualizada desse espírito: continua obcecada pela excelência, mas combina isso com autenticidade, vulnerabilidade calculada e múltiplas identidades (atleta, estudante, figura pública).
Se Kobe foi o símbolo da obsessão individual pela grandeza, Gu é um dos rostos da liderança multidimensional que consegue ser gigante no que faz sem caber em uma caixa só. A essência é parecida; a forma de contar essa história, não.
Em um mundo em que o COI reposiciona os Jogos de Inverno como plataforma digital e narrativa de atletas, figuras como Eileen Gu deixam de ser apenas campeãs. Elas se tornam personagens de um novo modelo de liderança: menos obcecado por medalhas e cargos, mais focado em critérios internos sólidos, processos íntegros e impacto de longo prazo.