Na metade do segundo quarto contra o Boston Celtics, neste domingo, o Lakers perdia por apenas cinco pontos.
Para quem estava em quadra, a sensação era de estar levando 50.
Como é possível que, em um grande jogo, em rede nacional, um time com Luka Doncic, LeBron James e Austin Reaves pareça tão desconectado a ponto de se sentir fora de uma partida que o placar ainda dizia estar aberta?
As respostas ajudam a explicar por que, quando o Lakers joga mal, parece desabar. E por que a equipe consegue ter campanha positiva (34–22), mas saldo de pontos negativo na temporada.
Qualquer resquício de união mostrado na vitória de sexta sobre o LA Clippers foi esmagado no 111 a 89 sofrido para o Celtics. Os problemas apareceram principalmente no ataque, onde o Lakers caminhou em suas posses, tijolou arremessos e abandonou praticamente todos os bons hábitos que tinha exibido no jogo anterior.
“Nós fomos simplesmente horríveis”, resumiu o técnico JJ Redick sobre o desempenho ofensivo.
Números frios, sensação pior ainda
Os 89 pontos foram a segunda menor marca do Lakers no ano, assim como os 39,1% de aproveitamento nos arremessos de quadra. As 18 assistências igualaram a quarta pior marca da temporada.
Na prática, pareceu ainda pior.
O time ainda não descobriu como maximizar o trio Doncic–LeBron–Reaves.
“Acho que dá pra ver que a gente ainda não está lá”, admitiu Doncic. “Estamos trabalhando nisso. Mas deveria haver um grande potencial em nós três jogando juntos.”
Deveria mesmo. Um é o maior pontuador da história da NBA. O outro é o líder de pontos da liga hoje. E Reaves tem sido tão eficiente na carreira que está longe de ser mero coadjuvante para quem acompanha de perto.
LeBron não discordou do diagnóstico.
“Não acho que estejamos bem agora”, disse. “Acho que a gente tem alguns jogos… mas, obviamente, agora é um sprint, e a gente tem que descobrir o que fazer. E não é só eu, AR e Luka. Óbvio que temos a bola nas mãos na maior parte do tempo. Mas temos que garantir que os outros caras também estejam no ritmo, no fluxo. O ataque são cinco jogadores, não três, dois ou um, seja quem for que esteja em quadra naquele momento. Tem que ser cinco caras conseguindo jogar um com o outro.”
Um ataque “bom”, mas abaixo do que esse talento exige
O potencial ofensivo, por enquanto, é mais teórico do que real. A eliminação na primeira rodada dos playoffs passados, para o Minnesota Timberwolves, caiu tanto sobre a defesa quanto sobre um ataque miserável em finais de jogo. E nesta temporada, o Lakers tem o 11º melhor rating ofensivo da liga — bom, mas não bom o bastante quando se leva em conta que a defesa é abaixo da média.
“A gente tem muita margem pra crescer. Não é só isso. Não é só isso”, insistiu LeBron, ao ser questionado especificamente sobre o ataque.
Talvez não seja só isso, mas é provavelmente o ponto mais consertável. Com esse elenco, o Lakers dificilmente terá uma defesa de elite, independentemente de esquema ou execução. Mas, se você apertar os olhos, dá pra imaginar uma defesa “boa o suficiente” se vier acompanhada de algo próximo da melhor versão desse ataque.
Falta de continuidade, falta de conforto, falta de confiança
Não é desculpa, mas o pouco tempo em quadra do núcleo principal por causa de lesões claramente cobra preço. Pouca continuidade vira pouco conforto. E isso, de forma mais devastadora, vira falta de confiança.
No ataque, falta de confiança quase sempre vira piora na movimentação de bola.
O jogo de domingo foi o 23º do Lakers na temporada com menos de 25 assistências. Nesses confrontos, o time tem campanha de 6–17. Nenhuma equipe com ataque mais eficiente tem aproveitamento pior em jogos com até 24 assistências. A mais próxima é o Charlotte Hornets, com 6–15 nessas situações.
Parte disso é simplesmente bola que não caiu. O Lakers criou arremessos livres de três nos cantos — e errou. Atacou o garrafão — e errou também.
Mas, na maior parte do tempo, a bola simplesmente não passou de jogador em jogador. O Lakers se contentou com posses de poucos passes, pouca inversão de lado, pouca paciência para tirar a defesa do Celtics do conforto.
É sintoma de um coletivo que ainda não confia totalmente no jogo um do outro — e, ao mesmo tempo, sabe o quanto tem de talento individual no topo. Às vezes, admitem os próprios jogadores, o time fica dependente demais disso.
“Você precisa entender que existem jogos que vão pedir jeitos diferentes de jogar”, explicou Reaves. “Com a capacidade de pontuar que o Luka e o Bron têm, vão existir noites em que você pega os matchups, ataca, pontua e vence assim. E vai ter noite como hoje, em que a gente — todos nós, eu incluso — tem que fazer um trabalho melhor de jogar com o passe. Quando você faz isso, tudo abre mais pro jogo um contra um. É isso que você quer. Então, sim, a gente tem que ser melhor.”
Um time imperfeito, mas longe de ser o único — o problema é como esconde (ou não) as falhas
O Lakers é — e provavelmente vai continuar sendo — um time imperfeito. Tudo bem. Quase todo mundo que ele enfrenta também é. A questão é que a equipe ainda não descobriu, de forma consistente, como esconder suas fraquezas e potencializar suas forças contra adversários de alto nível.
LeBron foi direto ao falar da derrota para o Celtics:
“Olha, às vezes você precisa acertar arremessos”, disse. “E eles acertaram bolas em momentos chaves e a gente não. A gente não se deu uma boa chance no ataque. Acho que, defensivamente, seguramos a bronca o quanto deu. Mas, ofensivamente, a gente não se deu uma boa chance.”
Entre a sensação de que uma desvantagem de cinco pontos parecia cinquenta e o incômodo de saber que o trio Luka–LeBron–Reaves ainda está longe do teto que deveria ter, o Lakers se vê diante de uma verdade incômoda: não falta talento. Falta transformar esse talento em algo que pareça, por mais noites, um ataque de elite de verdade.