A parceria entre Anthony Davis e o Lakers já foi tudo o que a franquia sonhou. Ele chegou em 2019 como grande estrela, formou uma dupla dominante com LeBron James e, logo na primeira temporada, ajudou a recolocar o time no topo da NBA com o título de 2019-20. Naquele momento, parecia o início de uma era de múltiplos campeonatos. Mas, nos bastidores, a relação foi se desgastando até se tornar irreversível – e isso explica por que o Lakers não hesitou quando surgiu a chance de trazê-lo de Luka Doncic.
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Do auge ao desgaste: lesões em sequência e frustração interna

Depois do título, o roteiro mudou rápido. Nos quatro anos seguintes, o Lakers:
– ficou fora dos playoffs uma vez;
– caiu duas vezes na primeira rodada;
– viu Davis perder muitos jogos por diferentes lesões.
De acordo com Brett Siegel, do ClutchPoints, cada nova lesão aumentava a insatisfação dentro da organização. A sequência foi pesada:
2020-21: só 36 jogos, por problemas na panturrilha e no tendão de Aquiles;
2021-22: 40 jogos, por entorse no MCL do joelho esquerdo e entorse no tornozelo direito;
2022-23: 26 jogos perdidos por lesão no pé direito.
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Ao longo desses anos, surgiram dúvidas internas sobre o quanto Davis cuidava do próprio corpo. Fontes ouvidas na matéria relatam que:
– na offseason, ele nem sempre se comunicava com o Lakers;
– sua condição física ao chegar ao training camp era descrita como “bem abaixo da média”;
– em alguns treinos de pré-temporada, havia gente se perguntando se ele tinha realmente treinado de forma séria nas férias.
Um membro da equipe, em anonimato, lembrou que, quando chegou, AD era “primeiro a entrar, último a sair” e sempre queria fazer mais. Com o tempo, porém, isso teria mudado: ele voltava, fazia aquecimento, muitas vezes sentava para ficar com o departamento médico ou participava das atividades pela metade. A percepção era de um jogador mais acomodado, menos alinhado às cobranças da diretoria.
O pedido por um pivô e o choque de visão com o Lakers

Esse desgaste físico e de confiança se cruzou com outra questão: o papel de Davis em quadra. Antes da offseason de 2024, AD e seu estafe se reuniram com o Lakers para reforçar um pedido antigo:
– ele queria jogar menos minutos como pivô;
– pediu mais ajuda no garrafão.
– defendeu que o time usasse ativos para trazer esse reforço de impacto.
Do lado de Davis, o discurso era focado em preservação física. A lógica era simples: menos contato direto no garrafão, menos desgaste acumulado, menor risco de novas lesões. Em resumo, um cenário mais parecido com a temporada do título, quando ele atuava mais como ala-pivô, com um “5” forte ao lado.
O Lakers, porém, tinha outra leitura de prioridades. Internamente, a diretoria:
– queria preservar ativos e flexibilidade de cap para 2025, ano da player option de LeBron James;
– não via a contratação de outro pivô como “necessidade central” do projeto;
– estava mais focada em consolidar Austin Reaves como terceiro grande nome ao lado de LeBron e Davis.
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A franquia até tentou, em diferentes momentos antes do trade deadline de 2025, encontrar mais ajuda de frontcourt, mas isso nunca virou eixo principal do planejamento. Para o Lakers, o peso maior estava em manter flexibilidade e apostar no perímetro; para Davis, a prioridade era reduzir a carga física como “único grande” no garrafão.
Essa divergência começou a gerar mais atrito. A narrativa de que “o time precisa de um outro center” foi se repetindo, em conversas privadas e também de forma pública, e isso, segundo Siegel, foi cansando parte da alta cúpula da franquia.
A “última gota”: quando o discurso de Davis selou seu destino

Enquanto isso, em outra frente, as conversas entre Nico Harrison, no Dallas Mavericks, e Rob Pelinka, no Lakers, avançavam em torno de um cenário que até pouco tempo atrás parecia pura fantasia: trazer Luka Doncic para Los Angeles.
No meio desse processo, Davis teria sido ainda mais enfático com a diretoria ao dizer que o clube precisava estar disposto a “fazer o que fosse necessário” para mantê-lo saudável e colocar o time na melhor posição possível para disputar o título em 2024-25. Para alguns “higher-ups” do Lakers, isso soou como crítica direta ao trabalho feito desde o título de 2020, quase como se a franquia não estivesse fazendo sua parte para montar um elenco competitivo. Uma fonte interna definiu essas falas como a verdadeira “última gota”, o prego no caixão da passagem de Davis em Los Angeles.
Ao mesmo tempo, dentro do clube já havia a sensação de que a confiança no físico e na dedicação de AD vinha caindo, que a relação estava desgastada por anos de atrito em torno de lesões e do papel dele em quadra, e que a chance concreta de adquirir um jogador do calibre de Luka Doncic, no auge, dificilmente apareceria de novo. A partir daí, o caminho ficou óbvio: era hora de virar a página. A troca deixou de ser apenas uma oportunidade de talento e passou a ser também um movimento de ruptura com um ciclo em que o Lakers já não acreditava.
Logo depois do negócio, Sam Amick já tinha relatado a frustração do Lakers com as declarações públicas de Davis pedindo um pivô “de ofício” para que ele voltasse a atuar como ala-pivô, como em 2020. A matéria de Brett Siegel só aprofunda o bastidor: não era só uma questão de preferência tática, mas um choque de visão entre o que AD queria para a própria carreira e o que o front office entendia como o caminho ideal para a franquia.
Depois da troca: realidades opostas em Lakers e Mavs

Hoje, o contraste entre os dois lados é grande:
Anthony Davis está em um Dallas Mavericks com campanha 4-10, lidando com mais uma lesão (estiramento na panturrilha) e futuro incerto após a demissão de Nico Harrison.
O Lakers tem registro 9-4, mesmo sem LeBron James, que se aproxima do retorno após uma ciática, e já apresenta uma nova espinha dorsal com Luka Doncic e Austin Reaves.
É totalmente possível que, um dia, a camisa 3 de Davis seja aposentada pela franquia, pelo peso do título de 2020 e pelo nível de talento envolvido. Mas, olhando para os bastidores, fica claro que a decisão de trocá-lo não foi apenas “Luka é melhor”: o Lakers trocou porque já não acreditava que AD, física e mentalmente, fosse o mesmo jogador que chegou em 2019.