Quando o assunto é “clutch” na NBA, os nomes que costumam aparecer primeiro são Michael Jordan e Kobe Bryant. O de LeBron James quase sempre vem depois, às vezes nem entra na conversa. Isso ignora um bom pedaço da história. Durante o auge, LeBron foi responsável por uma longa lista de cestas da vitória e atuações decisivas em fim de jogo.
Aos 41 anos, em sua 23ª temporada, ele já não é mais o atleta sobre-humano de antes, mas segue tentando empurrar o Lakers para vitórias. A derrota recente para o Orlando Magic, porém, reacendeu um debate espinhoso: quem deve arremessar a última bola em Los Angeles hoje?
No lance derradeiro contra o Magic, Luka Doncic teve um arremesso de três completamente livre. Em vez de chutar, preferiu colocar a bola no chão e, depois de ser dobrado, tocou para LeBron, que acabou errando uma tentativa de três contestada.
Quem errou na última posse? Para Marc J. Spears, não foi LeBron
A divisão de culpas na torcida foi imediata. Alguns apontaram o dedo para LeBron. Outros, para Luka. Já o analista Marc J. Spears, da ESPN, foi categórico ao isentar o veterano e defender que a bola deve continuar passando por suas mãos em momentos decisivos.
“Não há muitos jogadores na NBA que fechem jogos melhor do que LeBron James. (…) Por melhor que o Luka seja, eu quero a bola nas mãos do LeBron James”, disse Spears no programa NBA Today.
O argumento faz sentido até certo ponto. A leitura de jogo e o histórico de decisões de LeBron seguem em altíssimo nível. O problema é que o corpo não é mais o de um atleta de 30 anos. A elevação nos arremessos caiu, o primeiro passo já não é o mesmo, e finalizar por cima de defensores altos e descansados se tornou uma tarefa muito mais ingrata.
Nessa equação, Luka Doncic também entra na conta. Ele tinha o chute aberto que todo técnico desenha para o fim do jogo. Poderia ter arremessado a bola de três, ou então atacado a cesta imediatamente, sem parar o drible e permitir a dobra. Quando hesitou, colocou LeBron em uma situação de emergência, forçando um arremesso de baixo percentual.
O dilema maior: que LeBron esse Lakers precisa agora?
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A discussão sobre um único arremesso esconde um problema mais amplo. O Lakers está tropeçando em um momento crucial da temporada 2025–26. Mesmo com o trio Luka, Austin Reaves e LeBron disponível, o time com frequência parece abaixo do esperado.
Defensivamente, nenhum dos três tem impactado o jogo em alto nível. E, ofensivamente, o encaixe entre eles ainda é inconsistente, alternando lampejos de altíssimo teto com sequências de ataque travado.
Os números reforçam uma percepção incômoda. Quando Doncic e Reaves estão em quadra juntos e LeBron está no banco, o time costuma parecer bem mais perigoso. A circulação de bola melhora, o ritmo muda, e a defesa tem buracos um pouco menos evidentes. Estatísticas de net rating e lineups já mostraram esse padrão mais de uma vez.
É esse contexto que alimenta a pergunta que ninguém imaginava fazer alguns anos atrás: faz sentido considerar LeBron James como sexto homem neste momento da carreira?
LeBron comenta sobre indecisão de Luka em derrota do Lakers: Luka x LeBron: Quem deve tomar as decisões no Lakers?A hipótese do “LeBron sexto homem” ganha força
Para o jornalista Jovan Buha, do The Athletic, a resposta pode ser sim, pelo menos como teste até o fim da temporada. A lógica é mais tática do que emocional:
- permitir que Luka e Reaves comandem o quinteto titular, com mais espaçamento e defesa ao redor;
- usar LeBron como motor absoluto da segunda unidade, garantindo que o time não despenque sempre que Luka estiver descansando;
- reduzir o número de minutos em que os três dividem a bola ao mesmo tempo, já que essa combinação tem produzido menos do que o currículo dos três sugere.
Na prática, não se trata de “rebaixar” LeBron, mas de reposicioná-lo para maximizar o impacto por minuto, proteger o físico e, ao mesmo tempo, destravar o melhor cenário para Luka e Reaves.
Clutch não é só histórico. É contexto
LeBron já provou incontáveis vezes que sabe decidir jogos. O currículo de bolas importantes dele não desaparece porque um arremesso contestado contra o Magic bateu no aro. Mas a discussão de agora é outra. Menos sobre “quem foi mais clutch na história” e mais sobre quem é a melhor opção hoje, nesse elenco, nessa fase da carreira.
Contra o Orlando, o desenho ideal era claro:
- a jogada criada deu a Luka um arremesso limpo de três;
- ele hesitou, possivelmente influenciado pela má noite nos arremessos;
- LeBron acabou herdando uma bola “quente”, desequilibrado e bem marcado.
O próprio LeBron resumiu bem a sua visão: a escolha certa era Luka arremessar. A partir daí, o que o Lakers precisa decidir é se essa confiança em Luka como finalizador principal vai ser acompanhada por um ajuste de estrutura maior, que inclua menos minutos do trio junto e, quem sabe, uma versão de LeBron mais próxima de um <strong“super sexto homem” do que do astro que monopoliza a bola no fim.
Por ora, a única certeza é que, para um time que ainda patina em consistência, cada fim de jogo mal gerido custa mais do que uma derrota. Custa confiança, clareza de papéis e tempo, o recurso mais caro que existe para um elenco construído em torno de um LeBron de 41 anos.