Quando Mark Walter comprou o Los Angeles Lakers, a franquia deixou para trás as piadas de “loja de família” para se tornar um dos times com dono mais rico de toda a NBA. Em tese, isso deveria significar mais estrutura, mais investimento e mais ambição esportiva.

Em parte, é o que vem acontecendo: o Lakers planeja expandir o departamento de basquete, e Rob Pelinka, presidente de operações, já deixou claro que o time “não vai poupar despesas” nessa área.

Só que, como quase sempre em grandes negócios, a conta acaba aparecendo em outro lugar. E, neste caso, ela está batendo direto na porta do torcedor.

No sábado, Dave McMenamin (ESPN) informou que o Lakers vai reajustar para cima os preços dos carnês de season tickets a partir da próxima temporada. A franquia confirmou o movimento em nota enviada à ESPN:

“Estamos ajustando os preços dos carnês de temporada para o próximo ano”, disse a diretoria. “As atualizações refletem o cenário atual de mercado e a demanda.”

Casos reais expõem tamanho do aumento: quase 50% em um ano em alguns setores

O texto de McMenamin reúne diferentes relatos de torcedores com aumentos consideráveis. Um deles, já bem conhecido do público de NBA, é o de Rob Perez no Twitter, que detalhou reajustes expressivos em seu carnê.

Nas respostas ao post dele e em outros relatos, a história se repete: aumento forte, muitas vezes sem aviso prévio.

Outro exemplo citado pela ESPN envolve um season ticket holder de longa data, com lugares no nível 300 (os anéis superiores da arena). Segundo a documentação apresentada por ele, o preço:

  • era de US$ 5.494 em 2024–25;
  • subiu para US$ 6.192 em 2025–26;
  • vai saltar para US$ 9.035 em 2026–27.

Ou seja: em dois anos, o carnê vai ter quase dobrado de valor.

Nas redes sociais, incluindo o Reddit, outros torcedores relatam aumentos ainda mais agressivos. Um fã que diz ser season ticket holder há 10 anos, na seção 303, fila 15 (última fila do nível superior), contou o seguinte:

Ele paga cerca de US$ 15 mil por 5 ingressos na temporada atual e recebeu a cobrança para o próximo ano com o valor em US$ 22 mil, um aumento de US$ 7 mil de uma vez.

Segundo ele, tudo isso coincidindo com a chegada de Mark Walter ao controle da franquia, e servindo como alerta a outros torcedores: os preços vão ficar muito mais caros já em 2026–27.

Padrão Walter: aumentos agressivos que se repetem de franquia em franquia

Mark-Walter

Para quem acompanha o histórico de Mark Walter no esporte, nada disso soa exatamente como surpresa. Quando o empresário comprou o Los Angeles Dodgers em 2012, o clube subiu o patamar competitivo — mas também mexeu pesado no bolso do torcedor.

Em 2014, apenas dois anos depois da compra, os Dodgers promoveram aumentos de até 140% nos carnês de temporada, um salto considerado absurdo na época.

Agora, com relatos de aumentos no Lakers, a sensação de déjà-vu é forte. Ainda mais com a chegada recente de Lon Rosen, ex-executivo dos Dodgers, à diretoria do Lakers, o que reforça a ideia de um padrão de gestão aplicado em diferentes times.

Muitos torcedores, principalmente nas redes, chegaram a associar os aumentos à possibilidade de LeBron James ficar para uma turnê de despedida — e a franquia tentar lucrar ao máximo em cima disso. Mas, olhando para o histórico de Walter, o mais provável é que se trate de uma estratégia recorrente de valorização agressiva de ingressos após assumir o controle de uma organização.

Mesmo que a era Walter no Dodgers tenha trazido sucesso esportivo, o que se repete agora é o lado menos romântico da história: a conta subindo forte para o fã.

Atmosfera da Crypto Arena já era criticada – e tende a piorar

crypto-arena

A atmosfera nos jogos do Lakers na Crypto Arena já vinha sendo alvo de críticas há anos, especialmente na temporada regular. O argumento é conhecido: o torcedor comum foi, gradualmente, sendo expulso pelo preço, e o clima de “evento social” tomou conta de boa parte das cadeiras mais caras.

Sites de revenda de ingressos também tiveram papel grande nisso, inflando a procura e tornando difícil encontrar entradas a preços minimamente acessíveis para jogos de apelo médio ou alto.

Agora, com reajustes ainda mais salgados em carnês de temporada, a tendência é que esses problemas sejam amplificados:

  • o torcedor que ia a vários jogos no ano vai reduzir presença ou abandonar de vez o carnê;
  • os lugares tendem a ser ocupados por quem vê o ingresso como ativo de revenda ou experiência de luxo esporádica;
  • a chance de construir uma base regular de torcedores barulhentos, especialmente nos setores inferiores, fica menor.

Uma possível alternativa seria o clube criar regras que obriguem o carnê a ser usado em certo número de jogos para ser renovado — forçando presença real, não só especulação. Mas mesmo isso não resolveria o problema central: com esses patamares de preço, o “torcedor médio” fica cada vez mais longe de poder frequentar a arena com alguma regularidade.

No fim das contas, o prejuízo não é só financeiro para quem ama o time. É cultural: a experiência de ver um jogo do Lakers ao vivo, parte tão grande da identidade da franquia e da cidade, vai se tornando um luxo esporádico, não um hábito.

Sim, ter um dos donos mais ricos da NBA pode significar mais chance de montar elencos caros, staff robusto e infraestrutura de ponta. Mas, se a cada “melhora” estrutural a fatura recai dessa forma sobre quem sustenta emocionalmente a franquia, a pergunta inevitável é: quem, exatamente, está sendo incluído nesse “novo patamar” de organização?