A NBA puniu o Clippers no caso Kawhi Leonard e cobrou a conta mais alta que já aplicou por burla ao teto salarial. O time perde cinco escolhas de primeira rodada, paga multa de US$ 30 milhões e fica um ano sem o dono Steve Ballmer. O Lakers recusou um arranjo parecido em 2019.

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Resumo rápido
5 escolhas
Primeiras rodadas que o Clippers perde, uma em cada draft de 2029 a 2033.
US$ 30 mi
Multa aplicada ao time, quase nove vezes a do único caso parecido.
US$ 66 mi
Publicidade que Kawhi recebeu das quatro empresas ligadas ao time.
3 suspensos
Ballmer e a presidente de negócios por um ano, o chefe do basquete por seis meses.
5 anos
Prazo do programa de monitoramento que a liga instalou no time.

O que a investigação encontrou

A apuração durou quase um ano e ficou nas mãos do escritório Wachtell Lipton Rosen & Katz, de Nova York. A conclusão, anunciada na quarta-feira, é que o Clippers montou por fora um segundo caminho de pagamento para Kawhi Leonard, usando quatro empresas que faziam negócio com a franquia: Aspiration Partners, Boingo Wireless, Daktronics e Lockton Insurance.

O relatório descreve o mecanismo em quatro camadas. O time costurou os contratos de publicidade entre as empresas e o jogador. Ofereceu negócio próprio para convencer essas empresas a assinar. Pagou despesas pessoais de Leonard e de gente ligada a ele. E deixou de reportar à liga as investidas feitas em nome dele por Dennis Robertson, tio e então empresário do atleta.

O dinheiro dá a dimensão. Leonard recebeu US$ 66 milhões em publicidade das quatro empresas. Ballmer investiu US$ 60 milhões na Aspiration, e outras três receberam US$ 22 milhões do Clippers em contratos de consultoria. A investigação nasceu de um episódio do podcast “Pablo Torre Finds Out”, em 3 de setembro de 2025, que revelou o contrato da Aspiration com o jogador em documentos da falência da empresa.

A conta que a liga cobrou

A lista de sanções é longa e alcança quatro pessoas além do time. Steve Henson e Mirjam Swanson, do Los Angeles Times, publicaram o detalhamento completo.

Quem Punição
Clippers Perde uma escolha de primeira rodada em cada draft de 2029 a 2033 e paga US$ 30 milhões
Steve Ballmer Um ano afastado de todas as atividades da liga e do time
Gillian Zucker Um ano suspensa sem salário, também por prestar informação falsa aos investigadores
Lawrence Frank Seis meses suspenso sem salário
Kawhi Leonard Tem de pagar US$ 700 mil à liga
Dennis Robertson Cinco anos proibido de negociar com times da NBA

O único precedente, e ele saiu barato perto deste

A liga já tinha punido burla ao teto uma vez, e a comparação mostra o tamanho do que aconteceu agora. Em outubro de 2000, o Timberwolves foi pego em um acordo secreto com Joe Smith: perdeu cinco escolhas de primeira rodada, das quais duas foram devolvidas depois, e pagou US$ 3,5 milhões. O dono Glen Taylor e o dirigente Kevin McHale ficaram uma temporada afastados.

Mesmo número de escolhas, punição financeira quase nove vezes maior, e uma folha de suspensos que o caso de 2000 não teve.

Multa por burla ao teto
Clippers, 2026
US$ 30 mi
Timberwolves, 2000
US$ 3,5 mi
Valores nominais, sem correção pela inflação

Onde o Lakers entra nessa história

Aqui a pauta deixa de ser sobre o vizinho e passa a ser sobre a própria franquia. Em 2019, quando Leonard escolheu Los Angeles, o Lakers estava na disputa e ouviu o mesmo tipo de pedido do círculo do jogador. Jeanie Buss recusou, e a decisão dela era vista na época como o motivo de o time ter perdido a contratação, como a gente já escreveu quando o escândalo estourou.

Sete anos depois, a mesma recusa vale outra leitura. Se o Lakers tivesse aceitado, estaria agora sem cinco drafts, com a dona afastada por um ano e sob monitoramento da liga por cinco. A contratação que o time não fez virou a punição que o time não levou.

Há um efeito prático também, e ele mexe no Oeste. O rival de cidade entra na temporada sem o dono no comando, sem o presidente de basquete por seis meses e sem munição de draft para reconstruir até 2033. Para um time que precisa se reinventar depois da saída de Leonard, é o pior momento possível para ficar sem moeda de troca.

O que ainda não está resolvido

O Clippers não aceitou nada disso. Em nota, o time disse que rejeita as conclusões, chamou a investigação de enviesada e prometeu contestar por todos os caminhos disponíveis, defendendo que Ballmer gastou perto de US$ 50 milhões custeando a própria apuração. O problema é que, segundo fonte da liga citada pelo Los Angeles Times, não existe instância de recurso: a arbitragem é prevista para jogadores, e o sindicato optou por não acionar o mecanismo neste caso. O caminho que sobra é a Justiça comum.

Leonard escolheu outra estratégia. Assumiu responsabilidade pelo que chamou de falhas de julgamento de gente do círculo dele, disse que não sabia de intenção nenhuma de burlar o teto e encerrou olhando para a frente, já se referindo à volta a Toronto. A troca que o levaria aos Raptors em 30 de junho, por Brandon Ingram, Gradey Dick e um pacote de escolhas, ficou parada esperando o fim da investigação e ainda não se sabe se será concluída.

Sobra uma pergunta que a liga não respondeu: se o esquema envolveu quatro empresas, um investimento do dono e pagamentos de despesas pessoais durante anos, o que impede que outro time já esteja fazendo o mesmo. A resposta da NBA foi instalar um fiscal dentro do Clippers por cinco anos. Nos outros vinte e nove, continua valendo a palavra de cada um.