Holger Geschwindner, o homem que moldou o arremesso de Dirk Nowitzki, apareceu no minicamp que Luka Doncic organizou para o elenco do Lakers na Eslovênia. Marc Stein apurou o motivo, e não é o arremesso: o alemão de 80 anos toca com Doncic um projeto de basquete de base bancado pelo jogador.
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O alemão que apareceu no fundo do treino
O vídeo do treino circulou no fim de semana e a internet fez o que faz melhor: reparou no figurante. Num canto da quadra, de braços cruzados, estava um senhor que a NBA conhece bem. Holger Geschwindner passou trinta anos ao lado de Dirk Nowitzki e nunca teve outro pupilo profissional. Ver o homem daquele arremesso observando um treino do Lakers na Eslovênia era coisa demais para passar em branco.
Marc Stein, que cobre a liga há três décadas, foi quem respondeu. E a resposta desmonta a teoria mais óbvia.
“Holger trabalha de perto com o Luka nas iniciativas de basquete de base do Total Hoops Approach, assim como o Search Institute, com dinheiro do próprio Doncic.”
Marc Stein, jornalista de NBA, no X
Asked today why Dirk Nowitzki’s shot doctor Holger Geschwindner is seen observing this Luka Dončić-led Lakers workout in Slovenia.
A: Holger works closely with Luka on his Total Hoops Approach youth basketball initiatives as does The Search Institute via funding from Dončić. https://t.co/eX1kofMEWX
— Marc Stein (@TheSteinLine) August 23, 2026
Quem é o homem de braços cruzados
Geschwindner nasceu em 1945 e foi capitão da seleção da Alemanha Ocidental nas Olimpíadas de 1972, disputadas em casa. Depois virou uma figura difícil de classificar: metade professor, metade cientista amador. Em 1995 sentou com papel e lápis e concluiu que o ângulo de saída ideal de um arremesso é de 60 graus. A academia que ele mantém na Alemanha até hoje se chama Institute of Applied Nonsense, batismo que diz bastante sobre o método.
Foi nesse laboratório que Nowitzki entrou aos 16 anos, depois de Geschwindner vê-lo jogar num ginásio de cidade pequena. O treino não parecia treino. O garoto arremessava apoiado numa perna só, saindo do agachamento, depois de uma pirueta, e emendava flexões nas pontas dos dedos. Fora da quadra, aulas de instrumento para o ritmo das mãos, esgrima e valsa para o trabalho de pés, livros de física para entender por que a bola faz o que faz.
Deu certo de um jeito que ninguém previu. Nowitzki foi MVP em 2007, campeão em 2011 e se aposentou como o maior pontuador estrangeiro da história da NBA. Geschwindner foi o único treinador pessoal dele do começo ao fim.
Não foi aula de arremesso
É aqui que a manchete fácil morre. Geschwindner não atravessou a Europa para consertar a mão de ninguém do Lakers. O vínculo dele com Doncic é outro, e é antigo: os dois tocam juntos o Total Hoops Approach, programa de basquete de base que o jogador financia. O Search Institute, organização americana que estuda desenvolvimento de adolescentes, entra na mesma conta, também com dinheiro dele.
O minicamp foi de 20 a 24 de agosto, com quase todo o elenco em quadra, e Doncic pagou a conta inteira, de passagem a hospedagem. Juntar um treino do time e uma agenda do próprio projeto social, no mesmo país e na mesma semana, é economia de calendário, não recado técnico para o vestiário.
Mas o arremesso está na conversa de qualquer jeito
Ninguém precisa forçar a barra para colocar arremesso na pauta do Lakers. Doncic fechou 2025-26 com 33,5 pontos por jogo em 64 partidas, liderou a pontuação da liga pela segunda vez e ainda assim converteu 36,6% das bolas de três, com 47,6% de aproveitamento de quadra. O volume é de artilheiro. A pontaria de longe, não.
Esse é o dado que faz o time inteiro depender do que acontece ao redor dele. O elenco reconstruído para 2026-27 desembarcou na Eslovênia com nove jogadores que nunca haviam dividido uma quadra com Doncic. Se as bolas de fora não caírem, o garrafão fecha, e a temporada fica mais dura do que a folha salarial sugere.
A ponte entre os dois se chama Dallas
A relação não nasceu nesta semana. Doncic estreou na NBA em 2018-19, o último ano de Nowitzki em quadra, e os dois dividiram vestiário por uma temporada inteira. Geschwindner andava por ali, como andava havia vinte anos. Oito anos depois, o alemão aparece num treino do Lakers do outro lado do Atlântico e ninguém precisa explicar como as duas pontas se ligaram.
O que sobra da história não é promessa de arremesso melhor. É o retrato de um jogador de 27 anos que, na primeira offseason em que virou o dono da franquia, escolheu gastar quatro dias mostrando aos companheiros de onde veio, quem o formou e o que faz com o dinheiro que ganha. O resto é temporada, e ela começa em outubro.