O Lakers quase não ficou com Kobe Bryant em 1996. O New Jersey Nets tinha a oitava escolha e ia levá-lo, até o agente do garoto tirá-lo do radar da liga e empurrá-lo para a décima terceira, do Charlotte Hornets. Jerry West comprou essa escolha com Vlade Divac, na troca mais importante da história do time.
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O plano tinha duas peças, e nenhuma estava garantida
Na offseason de 1996, Jerry West precisava de espaço na folha salarial para fazer uma oferta grande a Shaquille O’Neal. A solução foi tirar do elenco o pivô titular, Vlade Divac, e o destino escolhido foi o Charlotte Hornets, que tinha a décima terceira escolha do draft daquele ano.
Visto de fora, parecia só um jeito de aliviar a folha salarial. Era outra coisa: West queria a escolha para gastar em um garoto de ensino médio dos arredores da Filadélfia. O encanto tinha começado em um treino no qual Kobe, aos 17 anos, foi marcado por Michael Cooper, o melhor defensor da era Showtime, então com 40 anos e já aposentado. West disse que nunca tinha visto um treino como aquele.
O problema é que, quando o processo começou, o Lakers não tinha escolha alta nenhuma e não havia certeza de que conseguiria uma. Quem tinha posição para pegar Kobe antes era o New Jersey Nets, com a oitava.
O que o agente fez para o garoto passar do Nets
Arn Tellem, que cuidava de Kobe na época, contou os bastidores no programa The Draymond Green Show. A estratégia foi simples e arriscada: parar de mostrar o cliente.
“Quando a gente apareceu naquele ano, ele ia para o Nets com a oitava escolha. Fizemos os treinos secretos e eu e o Jerry éramos muito próximos naquele momento. O Jerry disse que queria ele de verdade, que amava o jogador, e disse: ‘Olha, eu tenho planos grandes, vou tentar trazer um grande jogador da agência livre, o Shaquille O’Neal, vou tentar refazer este time e quero o Kobe nisso’. Eles não tinham escolha alta e ele não tinha certeza de que conseguiria uma, e eu também não tinha. Então começamos os treinos e ele treinou para alguns dos melhores times. Mas, por sorte, eu encerrei o processo com o New Jersey, e o New Jersey era o único time que ia pegá-lo. E só no dia anterior ao draft o Jerry finalmente me ligou e disse: ‘Consigo a décima terceira escolha’. Nunca vou esquecer aquela reunião com o Kobe e o Joe Bryant no quarto de hotel, e o Kobe me puxou para baixo e disse: ‘Quero ser um Laker, foi por isso que te contratei, me leve para o Lakers’. Eu sabia que, se conseguíssemos passar de New Jersey, ele cairia para a décima terceira. Não deixei nenhum daqueles times ver ele.”
Arn Tellem, então agente de Kobe Bryant, no The Draymond Green Show
Quem trouxe a fala para o público foi Robert Marvi, do LeBron Wire. Vale notar o que Tellem admite ali sem rodeio: ele manipulou o mercado do próprio cliente para levá-lo a um time que ainda não tinha como escolhê-lo.
A decisão que salvou o plano não foi tomada em Los Angeles
O Nets queria Kobe, e quem mais queria era o gerente geral John Nash. Tellem tratou de esfriar o ambiente por lá, dizendo que o garoto não gostaria de jogar em New Jersey porque o norte do estado era perto demais de casa.
Só que a palavra final sobre basquete no Nets daquela época não era do gerente geral. Era de John Calipari, o técnico, e ele decidiu por outro nome: Kerry Kittles. Com a oitava escolha, o Nets levou Kittles, e o caminho ficou livre.
A cena da mesa ao lado
O detalhe mais divertido da história aconteceu no salão do draft. Na mesa vizinha à de Tellem estava David Falk, rival e amigo dele, que representava justamente Kerry Kittles.
Quando o Nets anunciou Kittles, as duas mesas comemoraram, cada uma por um motivo diferente, e só uma sabia disso. “Eles estão felizes porque era ali que queriam ir. A gente está celebrando, a gente está enlouquecendo. Eles acham que é ali que a gente queria ir, não entendem”, contou Tellem. “O David vem até mim e pergunta: ‘Por que você está comemorando, tem alguma coisa na manga?’. E eu digo: ‘Tenho sim, David, você vai ver em pouco tempo’.”
Charlotte escolheu Kobe na décima terceira posição e, dias depois, a troca por Divac foi oficializada. Shaquille O’Neal também assinou. Cinco anos depois da primeira aposentadoria de Magic Johnson, o Lakers voltava a ser candidato.
O que aquela escolha virou
A conta do que veio depois está registrada: três títulos seguidos com Kobe e Shaq no começo dos anos 2000, mais dois no fim da década com Kobe e Pau Gasol, e um lugar permanente na lista dos títulos da franquia.
O que a história de Tellem acrescenta não é o resultado, que todo mundo sabe. É o tamanho da margem. Bastava o técnico do Nets concordar com o próprio gerente geral, ou o agente mostrar o cliente para um time a mais, e o Lakers estaria contando outra história há trinta anos. Franquia nenhuma constrói uma era assim de propósito, por mais que a gente goste de contar as coisas como se fossem inevitáveis.