Josh Kushner comprou o Lakers porque aposta que experiências humanas escassas ganham valor à medida que a inteligência artificial torna o resto abundante. Ele disse isso na primeira carta formal a investidores da história da Thrive Capital, divulgada em 14 de agosto, dois dias depois de anunciada a compra.

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Resumo rápido
  • Kushner escreveu a primeira carta formal a investidores da história da Thrive Capital, que administra mais de US$ 65 bilhões.
  • A compra do Lakers é financiada em parte pelo Thrive Eternal, fundo de capital permanente lançado neste ano.
  • A primeira operação do fundo foi uma fatia minoritária do San Francisco Giants.
  • O Lakers foi vendido por US$ 12,5 bilhões, alta de 25% em quatorze meses.
  • Jerry Buss havia comprado a franquia por US$ 67,5 milhões em 1979.

Uma carta que a Thrive nunca tinha escrito

Kushner tem 41 anos, fundou a Thrive Capital, é cofundador e vice-presidente do conselho da Oscar Health e quase não fala em público. Por isso a carta importa: em quinze anos de firma, ele nunca havia escrito uma comunicação formal aos cotistas. Escreveu agora porque a Thrive não faria o encontro anual de investidores neste ano, e o texto acabou virando a coisa mais próxima de uma justificativa pública para a compra.

A gestora administra mais de US$ 65 bilhões, quase tudo em tecnologia. O contraste entre essa carteira e a compra de um time de basquete é justamente o assunto da carta.

A tese: o que a inteligência artificial não fabrica

O argumento central é de escassez. Se a IA barateia a produção de conteúdo, de software e de praticamente tudo que é digital, o que sobra caro é aquilo que não se replica.

“Num mundo de inteligência abundante, certas experiências humanas escassas podem importar mais.”

Josh Kushner, em carta aos investidores da Thrive Capital

Ele detalha o raciocínio logo em seguida. “Num mundo em que conteúdo e software ficam mais fáceis de criar, ativos enraizados em identidade, cultura, comunidade, história e experiência física podem se tornar mais valiosos”, escreveu. “O Eternal foi criado para investir num pequeno número desses ativos e cuidar deles por períodos muito longos.”

Traduzindo para o que interessa a quem torce: identidade, cultura, comunidade e história são exatamente as quatro coisas que um clube de dezessete títulos tem de sobra e que nenhum modelo consegue gerar do zero.

O fundo que não pretende revender

O veículo da compra é o Thrive Eternal, criado neste ano com uma estrutura diferente do resto da firma. Fundo de capital permanente, ou seja, sem prazo de saída, sem obrigação de devolver dinheiro a cotista em cinco ou sete anos. A primeira operação dele foi uma fatia minoritária do San Francisco Giants.

Sobre o desenho do fundo, Kushner foi direto na carta. “O objetivo não é comprar, otimizar e vender”, escreveu. “Escolhemos de propósito uma estrutura de capital permanente, porque os ativos que queremos ter merecem um horizonte medido em décadas.”

Nem tudo que o Eternal tentou deu certo. A FIFA negociava vender ao fundo uma fatia minoritária da operação das Copas do Mundo, avaliada em US$ 4,2 bilhões, e a ideia naufragou depois de reação negativa em escala global.

Nem todo mundo lê a compra como defesa

A leitura mais fácil é que Kushner está se protegendo da própria carteira, comprando algo analógico para equilibrar bilhões em tecnologia. A Sportico discorda dessa leitura, e o argumento tem lógica: se a IA não provocar um colapso geral, ela vai concentrar mais renda e mais atenção justamente em quem oferece experiência que não se copia. Nesse cenário, o time não é hedge. É a mesma aposta, por outro caminho.

A conta do negócio ajuda a explicar a pressa. O Lakers saiu por US$ 12,5 bilhões, cerca de 25% acima do valor de quatorze meses antes, e Mark Walter embolsou US$ 2,5 bilhões de lucro no intervalo. Kushner e Bob Iger negociavam uma franquia de expansão em Las Vegas quando mudaram de alvo, e fecharam tudo em três dias.

O que a palavra “décadas” significa para quem torce

Existe uma referência histórica que dá tamanho à frase. Jerry Buss comprou o Lakers em 1979 por US$ 67,5 milhões e ficou com a franquia até morrer, mais de trinta anos depois. Foi nesse intervalo que o clube construiu a maior parte do que Kushner agora chama de identidade, cultura e história. Horizonte medido em décadas, no caso do Lakers, não é figura de linguagem: é literalmente como a franquia virou o que é.

O teste, porém, não vem da carta. Vem das decisões. A nova diretoria ainda precisa dizer o que fará com Jeanie Buss, Luka Doncic soube da venda pela imprensa e não foi consultado, e Bob Iger, questionado sobre planos, respondeu que é “prematuro especular”.

Carta de investidor é gênero literário generoso com quem escreve. Quem comprou tem todo o incentivo de soar como guardião, e nenhum custo em dizer que pensa em décadas. A conta só começa a ser cobrada na primeira vez que pensar longe custar caro no curto prazo.